Testemunhos

Contributo do Diretor do Museu do Abade de Baçal, Amândio Felício, por ocasião do Lançamento das Comemorações dos 25 anos da criação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

Leitura Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança – Tomo V – Os Judeus

Primeiro Preâmbulo

Quando escrevo olho aos factos e não às pessoas ou coletividades. Vastas passagens ficam nesta obra pouco agradáveis ao clero e nem por isso as omito.

Para mim, não me merece mais conceito um cristão do que um protestante, judeu, maometano, bramanista, confucionista, zoroastrista ou outro de qualquer religião que seja; respeito-os a todos igualmente e admiro-os quando sinceros. Todos adoram a Deus e, se no modo da adoração divergem, resta-me lamentá-los como cristão e orar por eles, certo de que eles procedem da mesma forma para comigo. (…)

Odiar o jeovista? Pois não é um mero acaso que eu sou cristão, por nascer e ser educado nesta religião como seria protestante, judeu ou maometano se nascesse noutra terra e até indiferentista se assim me tivessem dirigido? Podia estudar e comparar, é certo, as diversas religiões e escolher a melhor: mas são tantas, quase inumeráveis; nem todas se conhecem e quem tem tempo e competência para o fazer e depois liberdade de escolha, sendo incontestável que «o que o berço dá a tumba o leva» e que a raça, o meio e o momento coarctam mais do que muitos pensam a liberdade das nossas ações?

Odiar os judeus?! Mataram Cristo, dirão. Nada vejo de extraordinário. Estava escrito que assim tinha de ser e só temos a agradecer porque se o não matam não se completava a Redenção. É caso de parafrasear o grande Santo – feliz morte que nos trouxe um tal Redentor. Demais, mataram-no em virtude de um processo legal, um tanto tumultuário, é certo, mas processo em suma. Pregava contra o existente; contra as sinecuras proventosas dos alapardados à sombra da Lei; revolucionava o povo; pregava contra os ricos e poderosos e a favor dos preletários; pregava um socialismo como o dos Gracos ou o de nossos dias, o socialismo que surge em todas as nacionalidades quando corrompidas pelas prepotências dos grandes açambarcadores, dos locupletados à custa da miséria alheia; pregava uma melhor compreensão dos deveres sociais e humanitários; pregava contra o alto sacerdócio que engendrava uns cânones, uma teologia, dita Cabala, a seu modo, para melhor governar e governar-se e estes, principalmente, porque lhes bulia nos interesses é que o mataram. Se voltasse de novo ao mundo e azorragasse uns tantos mandões fariseus que lhe mercadejam e deturpam a doutrina, infalivelmente seria mandado fuzilar pela segunda vez.

(…)

Como é que o cristão há-de aborrecer o judeu? Não era Cristo judeu e judeus S. Pedro, o fundador da Igreja, S. Paulo, o seu maior doutor, os apóstolos, pregoeiros do cristianismo, alguns dos seus maiores e mais piedosos santos, papas e grandes homens? Não tem a Igreja por regra fundamental a Bíblia que o é também, em parte, para os israelitas? Não recebeu da Sinagoga a Igreja as suas instruções fundamentais, a sua liturgia, os seus formulários de preces, a sua exegese bíblica? Não rezam ainda hoje os sacerdotes cristãos o seu Breviário pelo mesmo teor, no fundo, que o fazem os ministros da Sinagoga? Não é mosaico no fundo o nosso culto e sem originalidade muitas práticas da Igreja que simplesmente copiou e adotou a orientação jeovista? Não é, em suma, o cristianismo filho do moseísmo? Como poderemos pois odiar os seus sequazes a menos que não queiramos passar por parricidas e filhos amaldiçoados?

(…)

Como se compreende que, num século de tanta liberdade como o nosso, os hebreus ainda escondam os seus arquivos? Estamos longe de supor que encerrem documentos comprometedores, maquinações sinistras ou se envergonhem de pertencer a essa raça.

Envergonhar?! Não foi Israel o primeiro povo que, antecipando-se de séculos, se elevou à conceção da ideia monoteísta; ao dogma da igualdade humana, quando a divisão das castas e o politeísmo continuaram por muitos séculos a aviltar a humanidade: conceções por tal forma grandiosas que só por si bastam para lhe dar relevo máximo na civilização mundial?

ALVES, Francisco Manuel (Abade de Baçal), Memórias Arqueológico Históricas do Distrito de Bragança – Tomo V – Os Judeus no Distrito de Bragança, Câmara Municipal de Bragança / Instituto Português de Museus – Museu do Abade de Baçal, Bragança, 2000

Excertos do Primeiro Preâmbulo ao Vº Volume das Memórias Arquológico-Históricas do Distrito de Bragança, o qual foi substituído por nelas ter exercido censura o Dr. Sena Esteves, professor, ao tempo, do Liceu de Bragança, por nelas o autor se desviar da ortodoxia católica-romana.

Testemunho de João Gonsalves, por ocasião do Lançamento das Comemorações dos 25 anos da criação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

O meu nome é João Gonsalves, antigo aluno do Colégio de Nossa Senhora do Rosário, no Porto e encontro-me, atualmente, no meu 1º ano na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Ao longo dos meus 18 anos de vida fui encontrando, através do contacto com várias realidades, aquelas que são as minhas grandes paixões, o verdadeiro foco da minha curiosidade e áreas como a História, a Literatura, a Biologia foram ocupando esse lugar bem próximo do meu coração.

Dado o tema desta conferência: “Ciência e Espaço – que futuro?”, compreendo que questionem o porquê de eu vir aqui falar se nem me digno a referir o Espaço como um dos meus grandes interesses.

De facto, foi só no final de 2018 que pela primeira vez equacionei participar numa atividade relacionada com a exploração espacial, quando, a convite de um amigo meu, João Barbot, decidi juntar-me a um dos projetos do qual mais me orgulho de ter feito parte. Os SatemLat. Um grupo composto por indivíduos extremamente diferentes que, à sua maneira peculiar e divertida, se completavam e formavam uma equipa empenhada em ser não só bem-sucedida, mas mais importante que isso, uma equipa empenhada em assegurar que todos se sentiam úteis e que todos davam o seu melhor ao projeto, independentemente do que isso fosse.

Com o objetivo de avaliar a capacidade de um exoplaneta de assegurar vida humana sustentável, levamos o nosso satélite do tamanho de uma lata connosco para os Açores, na fase final da competição portuguesa CANSAT 2019 e fomos ver se conseguiríamos, efetivamente, cumprir a missão a que nos propusemos. E é com enorme alegria que posso afirmar que o fizemos.

Todo o desafio de ter que desenvolver um mini satélite funcional quase de raíz, programá-lo para efetuar determinadas funções e interpretar os dados que recebemos dos nossos sensores, representa, numa maneira simplista, todo o processo que ocorre a um nível mais profissional. Participar na competição CANSAT foi, para todos nós, não só uma oportunidade para desenvolvermos as nossas aptidões intelectuais e pô-las em prática, mas também uma experiência fundamental para percebermos o que significa verdadeiramente trabalhar em equipa. Compreendi que eu, um jovem que sabia o básico de física, nada de programação, pontos essenciais para este tipo de projetos, poderia, mesmo assim, dar o meu contributo. O sentir que fui essencial, tal como todos os meus colegas, para o sucesso da nossa equipa será algo que levarei sempre comigo.

Posto isto, perguntaram-me: Qual será o papel de Portugal no espaço nos próximos 20 anos? Creio que a resposta mais honesta que posso dar será: Não sei. Consciente das principais metas que a Portugal Space 2030 delineou para os anos que se avizinham, que contemplam realidades desde o crescimento económico e criação de novas infraestruturas ao aumento da cooperação científica internacional, posso sim afirmar com toda a certeza que o grande potencial do projeto espacial português será congregar e motivar os nossos jovens, vindos das mais diferentes áreas, a dar o seu contributo para esta causa que é maior que todos nós.

Para terminar faço somente um apelo. Deixemos que esta aposta no espaço seja uma porta que se abre para aqueles que, a nível académico podem não ser tão bem sucedidos, mas que possuem um vasto potencial dentro de si. O ensino vai muito para além das quatro paredes de uma sala de aula. Ao apontar para voos maiores, aproveitemos a energia, a criatividade, o olhar competente e sonhador dos jovens que formamos. Só assim seremos capazes de, verdadeiramente dar um passo em frente no que toca ao nosso papel no espaço, no panorama internacional.

Inspirados na diferença, motivados pelo desafio e pela cultura de partilha que empreendimentos como este proporcionam, devemos procurar perceber que cada um de nós pode, por mais improvável que pareça, dar o seu contributo e ajudar o nosso país a ter um papel central na construção desse mundo do amanhã que será altamente influenciado pelas decisões que tomamos hoje relativamente ao que fazemos lá em cima.

Testemunho sobre a importância do 1° Orçamento de Ciência e Tecnologia de Fátima Biscaia, diretora do Serviço de Informação Científica e Técnica da JNICT

Testemunho de Jorge Magalhães Correia (Presidente do Conselho de Administração Fidelidade)

Vinte e cinco anos depois de José Mariano Gago e António Guterres terem criado o Ministério da Ciência e da Tecnologia, parece quase impossível pensar que em 1995, a escassos cinco anos da passagem do milénio, Portugal ainda não tivesse um Ministério integralmente dedicado às temáticas da Ciência e Tecnologia. Se Portugal é hoje um pais diferente, melhor, mais desenvolvido e preparado para o futuro da Europa e do Mundo, muito devemos a José Mariano Gago que dedicou a energia de uma vida a fomentar e desenvolver políticas públicas para a formação avançada, a valorizar o emprego qualificado e a implementar estratégias de apoio, promoção e valorização da ciência da inovação e do conhecimento, bem como a todos os Ministros dos Governos subsequentes que continuaram a sua obra.

O desenvolvimento da capacidade científica e tecnológica do país teve também como beneficiário direto as suas empresas. No Grupo Fidelidade muito beneficiamos, diariamente, com esta estratégia e com todos os impactos que o reforço da capacidade científica nacional no tecido produtivo nacional implicaram na nossa competitividade empresarial, e com a grande qualidade da formação, da investigação, inovação e capacidade científica de todas as Universidades, Escolas Superiores e Institutos Públicos e Privados.

Este projeto coletivo de aposta na ciência e na inovação merece todo o nosso apoio. Estamos certos que a aposta contínua na Ciência e Tecnologia continuarão a contribuir para a construção de um futuro melhor, mais coeso, mais próspero, mas também mais humano, com a aposta nas pessoas e no conhecimento com vetores essenciais de desenvolvimento sustentado.

O Grupo Fidelidade não queria deixar de assinalar a passagem destes primeiros 25 anos deste Ministério tão importante para o nosso futuro. É com gosto e profundo agradecimento por todo o trabalho desenvolvido que nos juntamos agora, e desta forma a estas comemorações.

Contributo do Prof. Dr. Xerardo Pereiro e do Prof. Edgar Alexandre da Cunha Bernardo

A propósito da recente avaliação internacional, coordenada pela FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia – Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior), dos centros de investigação nacional portugueses e no âmbito das Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia, Demografia e Geografia) realizámos uma análise crítica do relatório de avaliação do painel de especialistas internacionais, todos eles estrangeiros. Louvar que este relatório foi público e permite-nos fazer uma reflexão ponderada sobre algumas linhas de força e valor para as ciências sociais em contexto europeu. Em total foram avaliados neste painel 18 centros de investigação, e como em qualquer avaliação, esta deixou alguns contentes e outros descontentes. Três centros (CES, CIEG e ICS) receberam avaliação de “excelente”, sete centros foram considerados “muito bom” (CEG, CIES-IUL, CRIA, CSG, DINÂMIA-CET-IUL, IS-UP, GOVCOPP), cinco “bom” (CLISSIS, CICS-NOVA, CIAS, CETRAD, CEGOT) e três como “fracos” ou “insuficiente” (CEMRI, RECI, AGE.COM).

Prof. Dr. Xerardo Pereiro (Ver CV)

Prof. Edgar Alexandre da Cunha Bernardo (Ver CV)

Testemunho do Dr. Peter Villax, Administrador, Hovione Capital

A José Mariano Gago devemos os grandes avanços na Ciência em Portugal. Primeiro na JNICT e depois no Ministério da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago imprimiu um enorme desenvolvimento, que assentou numa política de excelência no ensino superior e na abertura às universidades estrangeiras, onde os nossos jovens investigadores puderam ir abrir ainda mais o espírito e o conhecimento. Ficámos mais internacionais, mais cosmopolitas e, sobretudo, mais confiantes.

O desafio ainda não acabou, e cabe a Manuel Heitor continuar a missão que o seu mentor nos deixou. Apostar nas ciências exatas, na Medicina, nas engenharias e no digital para abraçarmos com o mesmo entusiasmo que Mariano Gago teria abraçado as grandes linhas para o desenvolvimento sustentável e para o progresso.

Testemunho de Maria Antónia Pires de Almeida

Participei ativamente nestes últimos 25 anos de Ciência em Portugal, já que tive a minha primeira bolsa da JNICT em 1995 para escrever o meu mestrado. A partir de então a investigação tem sido a minha profissão, se bem que sob a forma de bolsas e apenas dois contratos de trabalho não renováveis. Após uma bolsa de doutoramento e outra de pós-doutoramento, tive um contrato Ciência 2007 por cinco anos, seguido de um período de desemprego. Voltei a ter uma bolsa de pós-doutoramento, que me permitiu um contrato da norma transitória. É esta a minha situação atual, precária como sempre em toda a minha carreira. Não posso apenas apontar a parte negativa. Publiquei onze livros e escrevi dezenas de artigos que consegui, com muito esforço, que fossem aceites em revistas internacionais com arbitragem científica e que me proporcionaram convites para dar conferências nas mais prestigiadas universidades, como Cambridge, Martin-Luther-Universität, Halle-Wittenberg, École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris, Pontifícia Universidade Católica do Chile, entre outras. Também várias universidades portuguesas me convidaram para aulas e palestras. Apresentei comunicações em congressos internacionais onde tive o privilégio de contactar com investigadores de todo o mundo e trocar experiências. Difundi o meu trabalho a públicos fora do âmbito académico. Contribuí para a difusão da Ciência e da Investigação em Portugal e no estrangeiro. E ganhei o prémio científico do ISCTE em 2019. Tenho 51 anos, consegui criar três filhos e produzir trabalhos relevantes. Daqui a quatro anos o meu contrato acaba e não sei o que me vai acontecer.

Testemunho de Mário Rui

Sei que o Ministro Manuel Heitor muito fez para doutorados terem um contrato de trabalho. Mas as faculdades desvirtuaram o DL57 e em vez de darem contratos no âmbito público, usaram empresas privadas (Ex: IST-ID) fictícias para não termos acesso à carreira.

O belo DL57 criado pelo Ministro Manuel Heitor, que me ia dar uma hipótese de carreira em 2024, vai agora mandar-me para o desemprego em 2024 visto as faculdades não terem cumprido o prometido.

Muito falta fazer para corrigir esta justiça. Acredito que o Ministro Manuel Heitor faça o correcto e todos tenham acesso a uma carreira em 2024.

Testemunho do Engenheiro Paulo Pereira, Director, Head of Technology and Innovation Strategy, Altice Labs

Encontrava-me na fase final dos meus estudos quando este marco importante para a realidade Nacional ocorreu. Entrei no mercado de trabalho em pleno fervilhar de projetos de inovação, em plena revolução das comunicações e do software e recordo-me bem do entusiasmo em desbravar novas fronteiras, em explorar novidades que sempre julguei estarem longo do alcance de alguém num Portugal do final da década de 90 do século passado, que só nessa altura dava os primeiros passos para se aproximar da Europa e do Mundo, no que à tecnologia diz respeito.

A tecnologia era absorvida por todos e por todo o lado: Portugal adotava tudo o que de novo surgia. Um privilégio que dificilmente seria possível sem a visão desse grande senhor!

Testemunho do Dr. Luís Portela, Presidente da Fundação Bial

7ª Simpósio da Fundação Bial ”Aquém e Além do Cérebro”, 2008
Lembro a visão estratégica e a capacidade de concretização de José Mariano Gago, com um fantástico trabalho em prol da ciência em Portugal, iniciado alguns anos antes na Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT), mas com um momento decisivo na criação do Ministério da Ciência e Tecnologia, em 1995. Seguiram-se 20 anos de liderança firme e serena, catapultando a Ciência que se faz em Portugal para níveis que comparam bem com a que se faz na Europa.

Lembro a decisão de António Guterres, nessa altura, de fazer da ciência e da saúde os dois principais focos de interesse do seu Governo, o que teve claras repercussões no bom desenvolvimento desses setores, não só no período da sua governação, mas também nas décadas que se seguiram.

Lembro o trabalho de toda uma Equipa de pessoas competentes e dedicadas que, no Ministério da Ciência, na JNICT, na Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), na Ciência Viva e em outras estruturas, serviram o superior interesse do desenvolvimento científico do nosso país. Entre elas, recordo o trabalho discreto, mas notável, de Maria de Sousa, que permitiu elevar os níveis de exigência da Ciência que se faz em Portugal.

Mas também não posso deixar de lembrar Maria da Graça Carvalho e Nuno Crato, que, pelo meio, governaram a Ciência no nosso país, sem estragarem o que vinha a ser feito – como tantas vezes, infelizmente, acontece na governação ministerial –, antes procurando dar sequência e desenvolver o que havia sido feito e planeado.

Lembro aqueles que apoiaram Mariano Gago e, depois, assumiram a tarefa de dar continuidade à sua obra, entre os quais se destaca Manuel Heitor. Desejo que saiba manter o peso político, o discernimento e a capacidade de liderança capazes de proporcionar um continuado grande desenvolvimento científico, bem como uma progressiva melhoria da capacidade de o aliar com o desenvolvimento económico.

Lembro, finalmente, que faltou a Portugal nos últimos 25 anos habituar-se a transferir para a economia o conhecimento adquirido pela ciência. E desejo muito que, nos próximos anos, o país se foque na criação de riqueza pela via da inovação, fazendo da relação entre as universidades e as empresas uma forte alavanca para o desenvolvimento.

Testemunho de Bruno Azevedo, Diretor Executivo na AddVolt

Enquanto FEUP Alumni e empreendedor destaco a excelência das instituições de ensino superior na formação de recursos humanos de elevada qualidade. O aparecimento e a consolidação de centros tecnológicos permite que ideias extrapolem os muros das faculdades, respondam aos novos desafios da sociedade e se convertam em valorização económica. Neste processo, também a estreita ligação ao mercado e a abertura das empresas estabelecidas à partilha de conhecimento revela ser um elo crucial no desenvolvimento e na promoção de tecnologias que contribuem para o bem estar e para o progresso comum.

Nos últimos 25 anos assistimos a grandes avanços e estamos gratos pelo trabalho desenvolvido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia para a evolução científica e humana que muito contribuiu para posicionar o país na vanguarda da inovação Europeia. Com a missão de anteciparmos a construção de um futuro sustentável, reforçamos o nosso empenho na melhoria contínua desta obra que pertence a todos.

Na fotografia os 4 fundadores da AddVolt, uma empresa tecnológica com alicerces na FEUP e estabelecida em 2014, com o mentor do projecto.

Da esquerda para a direita: Miguel Sousa (Diretor de Qualidade na AddVolt), Bruno Azevedo (Diretor Executivo na AddVolt), Adriano Carvalho (Professor Catedrático no Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores da FEUP), Ricardo Soares (Diretor de Engenharia na AddVolt) e Rodrigo Pires (Diretor Comercial na AddVolt)

Testemunho de Orlando Monteiro da Silva, Bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas

Há mais de 20 anos havia já 7 faculdades de medicina dentária, exatamente as mesmas que existem nos dias de hoje.

A Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) registava, no final do ano passado, 10.653 membros com inscrição ativa. As conclusões do estudo “Os Números da Ordem” mostram que há 1.509 médicos dentistas a exercer, exclusivamente, no estrangeiro e estimam que a exercer, exclusivamente, em Portugal sejam 9.385. Há ainda 327 médicos dentistas que trabalham em simultâneo em Portugal e no estrangeiro e 847 inscritos que não exercem a profissão.

Embora o número de estudantes portugueses tenha decrescido face ao último ano, verifica-se que o número de estudantes de medicina dentária, no geral, aumentou 5,5%. Este número sustenta-se no forte aumento do número de estudantes estrangeiros, na casa dos 37,5%, demonstrativos de uma mudança de paradigma nas universidades.

O reconhecimento internacional do ensino da medicina dentária em Portugal tem sido cada vez maior e muitos são os que escolhem o nosso país para fazer a sua formação de base, regressando depois ao seu país de origem, não vindo a ser membros ativos da OMD a exercer no nosso país.

A formação universitária deixou de ser, essencialmente, dirigida ao mercado português e para portugueses, e passou a ser um Serviço, um valor acrescentado dirigido também a nacionais de outros países, dentro e fora da União Europeia. Mais de um terço dos alunos das instituições portuguesas de ensino superior são provenientes do estrangeiro, com prevalência de França, Itália e Espanha, de entre outras nacionalidades.

No ano em que se celebram os 25 anos da criação do Ministério da Ciência e Tecnologia em Portugal, 1995-2020, a Ordem dos Médicos Dentistas felicita todos aqueles que ao longo destes anos elevaram o ensino em Portugal. São mais de duas décadas de uma história de superação, para a qual têm contribuído também os licenciados em medicina dentária. Faço votos que o futuro do ensino superior, em Portugal, tenha políticas responsáveis e um adequado planeamento dos recursos humanos.

Testemunho do Dr. José Farinha Nunes, Presidente da Câmara Municipal da Sertã

Completam-se agora 25 anos sobre a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia em Portugal. Foi um passo decisivo para o país e para a afirmação e consolidação de uma política científica então inexistente.

Os progressos na ciência produzida em Portugal foram notáveis ao longo deste período. Basta citar alguns números: temos mais investigadores, o número de doutorados formados cresceu, as publicações indexadas na Web of Science e as patentes requeridas ao Gabinete Europeu de Patentes aumentaram, as publicações científicas atingiram valores significativos e o investimento em ciência está num patamar bastante considerável.

A concretização do cenário atrás descrito tem a assinatura de um homem, que muito fez pela ciência em Portugal, o saudoso José Mariano Gago. A ele se deve a construção de uma verdadeira política que criou as bases para este autêntico ‘boom científico’.
Não devemos, contudo, perder o foco em relação ao futuro e temos de estar à altura dos desafios. No Município da Sertã, estamos a olhar muito seriamente as questões de I&D.

O SerQ – Centro de Inovação e Competências da Floresta é um exemplo do que deve ser o futuro da ciência. Município da Sertã, Universidade de Coimbra e LNEC construíram um projeto conjunto e mostraram que a ciência deve caminhar por aqui. A interdisciplinaridade e a colaboração entre autarquias e universidades devem estar na linha da frente.

Mas tudo isto só foi possível porque há 25 anos houve quem tivesse acreditado que era possível criar em Portugal um Ministério da Ciência e Tecnologia.

Testemunho de Maria Helena Mira Mateus, Professora Catedrática Jubilada da Faculdade de Letras de Lisboa, Presidente do ILTEC (1988-2016)

No âmbito das comemorações dos 25 anos da criação do Ministério da Ciência e Tecnologia em Portugal (1995-2020), tenho o prazer de enviar um testemunho pessoal sobre o interesse e o apoio que José Mariano Gago sempre demonstrou em áreas específicas das ciências sociais. Refiro-me concretamente à área da linguagem e da língua portuguesa, lembrando o projeto EUROTRA que foi atribuído a Portugal pela CEE em 1986, no ano da nossa integração, tal como sucedeu com as línguas oficiais dos restantes países comunitários. Este grande projeto, cuja direção em Portugal me foi entregue pelo Professor Mariano Gago, tinha dois objetivos básicos: 1. criar um sistema de tradução automática mais eficaz do que os existentes no mercado, sob a forma de um protótipo pré-industrial com grande aplicação no interior da CEE; 2. incrementar a competência em linguística computacional que era, na época e na comunidade científica portuguesa, inferior à de outros países europeus. O projeto não teve os bons resultados que se esperava mas cumpriu o desígnio de desenvolver a competência do tratamento computacional da língua portuguesa. José Mariano Gago era presidente da JNICT no inicio do projeto EUROTRA, e tanto nessa condição como mais tarde na de Ministro da Ciência e da Tecnologia, sempre revelou uma atitude interessada e empenhada em relação à investigação em ciências sociais e humanas. Lembro a propósito que em 1999, perante o longo caminho que havia ainda a percorrer pela universidade portuguesa no tratamento computacional da investigação linguística, Mariano Gago organizou no Fórum Picoas uma reunião para tentar criar um diálogo entre investigadores de informática e linguistas, diálogo que ele considerava importante e possível mas que não existia na altura.

Desejo explicitar como foram importantes para mim, e para os linguistas com quem trabalhei, a sua amizade e o seu apoio a partir do momento em que o EUROTRA e outros projetos na mesma área se começaram a desenvolver, cobrindo o tratamento computacional da língua portuguesa. E também não esqueço o prazer que me deu quando, a seu convite, colaborei na apresentação do Estado das Ciências em Portugal com uma comunicação sobre “A ciência da linguagem” (Bruxelas, Europália 91). Mariano Gago foi um Ministro da Ciência e da Investigação (mais tarde, da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior) de singular relevância em várias áreas do saber e a ele se ficou a dever um significativo impulso na investigação da universidade portuguesa.

Testemunho de Alexandra Monteiro, Investigadora Principal, CESAM-DAO, Universidade de Aveiro

Cientista

Alguns são desde muito pequeninos
Outros já eram bem mais crescidos
Quando o quiseram ser
Mas em todos estes cientistas
Há o mesmo espaço na alma do querer
que só um estudo autista o pode preencher

E assim cresce um cientista
Mesmo que mais tarde se desista
Mas é esse espaço que nos leva mais longe
Que nos faz estar sempre alerta
E que faz brilhar os olhos
Na mais pequena descoberta

É esse espaço de alma
Que supera o mais difícil
Dá certezas na incerteza
E teima em continuar
E ver no pântano em frente
Um terreno fértil para cultivar

E quem ouviu esse espaço de alma
Quem resistiu à imagem da frente
Pôde cantar os parabéns à Ciência
Viu-a crescer na utilidade
E ajudou uma infância mais dura
A tornar-se madura em idade

Mesmo com uma adolescência difícil
E sempre conturbada
Esta jovem sabe o que quer
Sem bolsas mas com contratos
Ser alguém forte e duradoura
Que diz obrigada com bom trato

Porque só assim
Os que desde pequeninos
E os que mais tarde descobrem
Este valor tão maior
Poderão ser cientistas de verdade
E ajudar o país a saber mais e melhor!

Testemunho de Helena Canhão, Responsável pela Unidade de Investigação de Epidemiologia em Doenças Crónicas (EpiDoC) da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e Coordenadora da Unidade de Investigação FCT Comprehensive Health Research Centre (CHRC)

A criação do Ministério da Ciência e Tecnologia em Portugal constituiu um marco importante na formulação e consolidação da política científica nacional. Em 25 anos, aumentou-se o financiamento em investigação e desenvolvimento científico, quer ao nível da academia quer no âmbito empresarial; estabeleceram-se parcerias com organizações estrangeiras; e elevou-se a fasquia de produção científica ao instituir-se a avaliação da investigação em Portugal por peritos internacionais. Estas iniciativas, por sua vez, aumentaram a nossa visibilidade lá fora e fomentaram a competitividade cá dentro.

Enquanto médica especialista em reumatologia e professora de investigação clínica e de epidemiologia de doenças crónicas e, ciente dos desafios na prestação de cuidados de saúde, defendo que é fundamental desenvolver e estimular a investigação clínica e aplicada, bem como a investigação em saúde publica, para que sejamos capazes de, por intermédio de evidência científica, contribuir para a melhoria da qualidade de vida das populações e da sociedade. Apesar de já termos alcançado muito, ainda temos bastante trabalho pela frente.

Atualmente na EpiDoC temos 21 projetos em curso, sete dos quais são financiados por iniciativas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

O Comprehensive Health Research Centre (CHRC) foi financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), classificado como “Excelente” e fornece um ambiente unificador para a investigação, inovação e educação em quatro linhas temáticas: a) promoção da saúde, saúde das populações e estilos de vida; b) doenças crónicas e infeciosas com alto impacto, comorbilidade e mortalidade; c) políticas de saúde e investigação em serviços de saúde e d) inovação em saúde. As unidades de gestão são a NOVA Medical School que coordena, a Escola Nacional de Saúde Publica, a Universidade de Évora, o Lisbon Institute of Global Mental Health e o Hospital Santo Espirito da Ilha Terceira, Açores. Em constante crescimento, o centro é constituído por 280 investigadores divididos em 17 grupos de investigação, distribuídos por 26 instituições em território nacional. O CHRC receberá 3.5 milhões de euros durante os próximos 4 anos.

Testemunho de Heloísa Santos, Médica Geneticista, Presidente Comissão Bioética da SPGH. Professora Convidada da FMUL, Doutoramento em Genética Humana, Primeira Presidente e sócia honorária da Sociedade Portuguesa de Genética Humana (SPGH), anterior Diretora da Unidade Genética do Serviço de Pediatria e primeira Diretora do Serviço de Genética Médica do Hospital S. Maria (Lisboa).

A criação da FCT foi um marco incontornável no desenvolvimento da ciência em Portugal. Sempre alavancada pelo entusiasmo e orgulho de Mariano Gago que, com dignidade e saber, transformou totalmente o modo como se realizava a investigação e suas aplicações no nosso País, a FCT tem prestado um serviço único ao nosso país.

Poderia citar o apoio pessoal recebido noutras ocasiões e alguns convites para participações representativas, mas creio que o que será incontornável nesta homenagem é referir o papel da FCT no desenvolvimento das Genética Humana em Portugal. O apoio à Sociedade Portuguesa de Genética Humana, desde a sua criação em 1997, através de subsídios financeiros à sua reunião anual, à Newsletter enquanto esta existiu e sob a forma de constante apoio à investigação atribuindo bolsas individuais e apoio a projetos de investigação aos jovens geneticistas. Em 1998 , no único Congresso da European Society of Human Genetics (ESHG) realizado em Portugal, e que, como Presidente Local, organizei na FIL, com o apoio de Carolino Monteiro. Mariano Gago esteve presente e proferiu um importante discurso. Junto a capa do programa e fotos que foram realizadas nessa reunião. Nesse ano de 1998 e 1999, em consequência desta estimulante reunião, aumentaram de forma substancial as publicações nas principais revistas científicas desta área da ciência como conseguimos demonstrar na altura, com o apoio do Observatório das Ciências e Tecnologias (Maria de Lurdes Rodrigues).

Encontrei-o, em 2002, quando a pé se dirigia ao Ministério nas Laranjeiras e eu aguardava, de automóvel, parada junto a um semáforo. Abri o vidro do carro para lhe dizer que lamentava que, como já sabíamos, ele não pudesse continuar. Riu-se e mandou–me, continuando a andar, um descontraído e exuberante adeus.

Testemunho da Doutora Paula Marques Alves, CEO do IBET

Na celebração dos 25 anos do Ministério da Ciência e Tecnologia e Ensino Superior destacamos a sua importância para o crescimento do iBET, nomeadamente através da participação da Fundação para a Ciência e Tecnologia, associada que é, até aos dias de hoje, Presidente da Mesa da Assembleia Geral do iBET.

O MCTES é assim parceiro da caminhada que temos vindo a fazer para colocar a Ciência e Tecnologia ao serviço da Economia Portuguesa. O seu apoio desde os primeiros momentos foi essencial para o desenvolvimento do I&D nacional na área da biotecnologia e ciências da vida permitindo ainda a projeção internacional e a captação de investimento em ciência para Portugal.

No iBET prestamos hoje serviços de I&D para algumas das maiores farmacêuticas nacionais e internacionais, para a industria agro-alimentar nacional e para Biotecs e Start-ups, cumprindo o nosso compromisso para com a ciência e economia. Destacamos ainda a formação de mestres e doutores e a criação de emprego qualificado (mais de 90 doutorados contratados), actividades que a FCT e o MCTES sempre acarinharam.

Testemunho de Arlindo Oliveira, Professor do IST e Director do INESC

Passadas duas décadas e meia sobre a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia em Portugal, é inevitável reconhecer o papel transformador que este evento teve sobre o tecido universitário, científico e tecnológico português. Muitas coisas mudaram muito neste período mas seguramente o sistema científico e tecnológico é daqueles que sofreu uma transformação mais profunda.

Nestes 25 anos, a capacidade de intervenção do nosso país nas áreas científicas e tecnológicas cresceu a um ritmo que é raro ou mesmo singular, a nível internacional. De um país atrasado e dormente, sem significativa capacidade científica, Portugal transformou-se num país Europeu, com um nível de desenvolvimento científico comparável ao de países congéneros.

É inegável reconhecer a contribuição fundamental de José Mariano Gago, tanto antes da criação do MCTES, como nos períodos em que foi ministro da ciência e tecnologia. José Mariano Gago foi o visionário que anteviu a transformação que seria possível criar no país se fossem dados aos jovens investigadores e cientistas portugueses, assim como ás instituições, condições para desenvolverem a sua paixão pela ciência. Durante décadas, José Mariano Gago criou e manteve activos os mecanismos que vieram a permitir a explosão da actividade científica a que assistimos. Foi um esforço que não desenvolveu sozinho, sendo de realçar o importante papel do actual ministro e de muitos outros que, com ele, acreditaram no que era na altura apenas uma visão. Mas será difícil, se não impossível, identificar, a nível nacional ou internacional, um outro nome que tenha tido um efeito tão profundo e transformador numa área tão vasta e diversa.

25 anos passados, importa preservar e consolidar os avanços que foram feitos neste quarto de século, criando condições para que a ciência seja financiada numa base plurianual, previsível, e desburocratizada, aproximando-nos progressivamente do objectivo definido de investirmos 3% do PIB em C&T, envolvendo universidades, centros de I&D, empresas e instituições de interface.

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